sexta-feira, 7 de maio de 2010

Cortesãs e favoritas

Autor Henri de Kock

Ao longo dos séculos, o termo cortesã vem adquirindo diversas definições: a amante favorita de um rei; a mulher que tem posição na sociedade e vive luxuosamente sem fazer, necessariamente, comércio do seu corpo; a prostituta elegante cujos serviços são exclusivos de uma abastada minoria, entre outras. Quase sempre apelidadas de licienciosas e renegadas ao status de libertinas, as cortesãs exerceram grande influência sobre o curso da história e o desenvolvimento das civilizações, ainda que os compêndios oficias não as explicite. E foi através da sedução que muitas conseguiram quebrar a hegemonia masculina nos círculos do poder, no tempo em que as mulheres eram relegadas ao papel de coadjuvantes no processo histórico.
Em Cortesãs e Favoritas (Germape, 2007, com tradução de Vieira Neto), o pesquisador francês Henri de Kock oferece ao leitor a possibilidade de perceber o quanto algumas célebres cortesãs influenciaram a tomada de decisões da realeza, tendo em vista as circunstâncias que envolveram a passagem de cada biografada, ou seja, os costumes de época, a história de cada país e a vida de cada favorita. Sérgio Faraco na introdução de O livro das Cortesãs (L&PM, 1999), refere-se à beleza e à sabedoria como traço principal da personalidade dessas mulheres: “(...) até as poderosas e notórias, que com seus encantos e saberes empolgam ou derrubam os mais considerados sólios”. Mas Kock consegue revelar aspectos que, além de contemplar o belo e a erudição, são traços comuns entre as cortesãs por ele biografadas: crueldade e ambição.
São nove as eleitas no exaustivo trabalho de pesquisa de Cortesãs e Favoritas: Ródope, que há três mil anos conseguiu desestabilizar o Egito e erguer sua pirâmide apenas pelo frisson que causavam os seus minúsculos pés; Frinéia, a nua do tribunal grego, que por haver acumulado tanta riqueza, ofereceu-se, ironicamente, para reerguer as muralhas de Tebas no lugar de Alexandre, o Grande; Cleopátra, que especializou-se na arte do envenenamento na Alexandria, com o objetivo de livrar-se, sem escândalos, de incômodos ao seu reinado; Messalina, que há mais de vinte séculos, sentia prazer em queimar escravos com ferro em brasa e condenava inocentes à morte com a prodigalidade de uma assassina romana; Teodora, imperatriz egressa da humildade e da desonra em Constantinopla, que mandou construir no seu palácio de verão uma prisão onde os raios de sol jamais penetravam, trancafiando até a morte quem ousasse recusá-la; Lucrécia Bórgia, espanhola filha de cortesã, que fez composições políticas à base de venenos, orgias e punhais, como afirma o pesquisador “orgias que fariam corar o prórpio Satã”; Fornarina, que no século XVI, na Itália, causou a morte do pintor Rafael Sânzio, fingindo-se de ingênua, porém, cultivando muitos amantes, alguns dos quais mandou matar; Pompadour, que enfeitiçou Luis XV com a engenhosidade de transfigurar-se e derramar lágrimas, colaborou com o exílio de Voltaire e mandou matar as favoritas do rei e, por último, a dançarina Lola Montez que se dizia espanhola (era escocesa nascida em 1818) e, após ter desfrutado da cama de reis, morreu vítima do esquecimento.
Amor e ódio, perdão e vingança. Sentimentos antagônicos que nutriram a crueldade das cortesãs biografadas por Henri de Kock e defendidas por Sheakspeare, no ato IV, cena VI de O rei Lear: “Por que açoitas essa pobre rameira? Vira contra ti próprio essa chibata. Estás ardendo de desejo de realizares com ela o ato pelo qual a castigas”. Mesmo que a realização do desejo tenha tido, como conseqüência, um ritual de luxúria e de sangue.

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